“Hit Man” – Risadas, estresse e diversão

Richard Linklater é um dos realizadores mais interessantes da atualidade. Por um lado, realizou clássicos como a trilogia Before — que tem como primeiro filme Before Sunrise (1995) — ou mesmo Dazed and Confused (1993), School of Rock (2003) e obras bastante galardoadas como Boyhood (2014). Por outro lado, também realizou filmes que acabam por não ter muito impacto e desaparecem facilmente da memória coletiva (até serem programados como filmes de uma sessão da tarde na RTP1), como Bernie (2011), Last Flag Flying (2017) e Where’d You Go, Bernadette? (2019). No entanto, com o seu novo filme Hit Man (2023), é muito difícil de dizer em que lado é que este vai acabar por ficar, por muito que eu o tenha adorado.

Hit Man conta a história de Gary Johnson (Glen Powell), um professor da faculdade que trabalha para a polícia como um agente infiltrado, com o objetivo de fazer com que pessoas que queiram contratar um assassino profissional sejam postas na prisão. Parece estar tudo a correr bem até que conhece Madison (Adria Arjona), alguém que vai trazer muitos problemas, mas também romance para a sua vida.

De facto, eu não fazia a mínima ideia do que é que o filme tratava antes de o ver. O facto de ter tido a sua antestreia nacional no festival LEFFEST, de ser realizado por Linklater e protagonizado por Powell fez com que não pensasse duas vezes em comprar bilhete, mas fiquei genuinamente surpreendido quando o filme revelou ser uma comédia com alguns traços de thriller. Tê-lo visto com uma audiência enorme também ajudou para o meu divertimento, visto que se ouviram risadas bem altas várias vezes ao longo da duração desta estreia. É um daqueles filmes que pode até ser simples, mas é tão divertido e carismático que acaba por ser a única coisa que precisamos depois de um longo dia. Tive uma experiência incrível visto que não parava de rir, estava genuinamente interessado na trama geral e fez com que conseguisse fugir aos meus problemas fora daquela sala de cinema durante 2 horas.

Com um argumento escrito por Linklater e Powell, nota-se que ambos estão a divertir-se imenso com este projeto: o realizador dirige um filme descontraído, que não pede muito de uma forma artística (o que pode ser um ponto negativo), enquanto o ator faz a melhor atuação da sua carreira num papel criado pelo próprio. Estes dois já haviam colaborado em vários projetos juntos, nomeadamente Everybody Wants Some!! (2016), um filme muito subestimado que recomendo bastante. Com esta nova obra, mostram que são uma dupla que funciona muito bem, no que toca a criar filmes divertidos que entretêm bastante. Hit Man é baseado numa história verídica, mas percebe-se que não é totalmente fiel à realidade o que, neste caso, não apresenta um problema: a película sabe os pontos reais que deve respeitar e onde pode tomar mais liberdade. 

No entanto, nem tudo é perfeito, já que artisticamente o filme não é nada de especial. Com uma fotografia bastante fraca, sem inspiração, Linklater não inova muito na sua realização, não se notando nenhum estilo particular de direção, podendo ter sido feita por qualquer outro realizador. Porém, acredito que nem todos os filmes precisam de ser inovadores e, por muito que gostasse que Linklater realizasse o filme como realizou a trilogia Before ou School of Rock (filmes com bastante alma e estilo), não há muito problema no facto de Hit Man não possuir isto. Mais uma vez, é um filme simples, mas entretém imenso e é muito divertido, fazendo com que seja difícil ficar incomodado com estas escolhas artísticas, ou mesmo com a falta delas.

No que toca à atuação, Glen Powell brilha com este papel, recebendo asas e liberdade, permitindo que este faça o que quiser. Por fazer de agente infiltrado, Powell acaba por atuar como várias personagens para esconder a sua verdadeira identidade, de forma muito engraçada, provando que com este filme, Top Gun: Maverick (2022) e Set It Up (2018), ele está apto para ser uma das maiores estrelas de Hollywood. É uma atuação que vai permanecer na minha mente durante muito mais tempo, devido ao claro divertimento que Powell está a ter ao interpretar esta personagem.Já Adria Arjona surpreende no papel de Madison, dando imenso carisma e personalidade a esta personagem. Já a tínhamos visto a brilhar na série Andor (2022), ou mesmo no filme Morbius (2022), sendo a melhor parte deste último. Neste novo filme, não tem problema nenhum em fazer com que o espetador se apaixone pela sua interpretação, notando-se que criou novas características para Madison, que provavelmente não estavam no guião.

Powell e Linklater escreveram um argumento com imensos momentos engraçados, que me fizeram rir alto, mas também juntaram a esta mistura várias situações estressantes que estão muito bem jogadas no meio da comédia. Ambos os atores têm de atuar em cenas longas com bastante diálogo (muito bem escrito), tendo imensas falas difíceis enquanto fazem movimentos complexos, mas foi tudo tão realista e bem interpretado que não conseguia tirar os olhos do ecrã. Não me lembro da última vez que o meu coração bateu tanto ao ver uma obra cinematográfica. Estava tão rendido ao filme e às suas personagens que estava genuinamente nervoso por elas em cenas em que o objetivo era causar desconforto na audiência, algo que foi alcançado sem dúvida alguma.

Hit Man pode acabar por não ser muito reconhecido nesta altura de cerimónias de prémios, mas eu creio que irá fazer a sua marca no outro lado do mundo do cinema, onde estão os filmes de conforto. Os dois atores principais têm um desempenho incrível, tornando toda esta experiência algo agradável, divertido e tenso em partes. Mesmo que Linklater não se destaque como realizador, criou algo que irá satisfazer o coração de muitos. Saí daquela de cinema feliz e com um sorriso no rosto, algo que muitos outros filmes atuais deveriam fazer, em vez de estarem sempre a tentar ser revolucionários.

Henrique Andrade

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